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FestFotoPoA 2010 debate o tempo na fotografia

Enviado por Mesa de Luz na 30/10/2009 – 11:14 am7 Comentários

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Foto: Carlos Carvalho - Colocação no Seringal N.Sa. Fátima/Brasiléia/Acre

Um dos textos mais lindos que fala da relação entre o tempo e a fotografia foi escrito….por uma seringueira. Um texto que fala da internalização do novo dentro de nós. Esse texto foi publicado na revista S/N editada por Bob  Wolfenson mas só o descobri agora, num blog chamado “tempo algum”, do jornalista e poeta acreano Antonio Alves, que o republicou. Esse post não foi movido por uma adesão política mas sim pela delícia da descoberta.

Um avião quase parado no céu
Marina Silva

“Mas, afinal, o tempo que valia mesmo era o nosso, o das nossas circunstâncias. Não nos incomodamos de saber, com cinco anos de atraso, algo que já era História no restante do mundo. Nossa velocidade, vejo agora, não era veloz. E isso não tinha a menor importância”.

Quando penso em velocidade, e acho que com a maioria das pessoas é assim, tenho a idéia de algo acontecendo muito rapidamente, de um tempo e um espaço a serem vencidos. Embora velocidade também tenha a ver com lentidão, raramente pensamos nela com esse sentido.
Para mim, ela só é perceptível numa relação comparativa. Minha primeira percepção a esse respeito foi por volta dos seis anos, quando vi os primeiros tratores e caminhões na BR-364, então recém aberta, que passava perto da colocação Breu Velho do seringal Bagaço, no Acre, onde nasci.
Colocação é o espaço de vida e trabalho de cada família seringueira. Um seringal se compõe de várias colocações. Numa parte da colocação fica a clareira com a casa, a pequena roça de subsistência, árvores frutíferas, local para a criação de alguns animais e um terreiro. Em torno, numa certa faixa da floresta, identificam-se as árvores para o corte e retirada do latex que vai virar borracha. Anda-se diariamente cerca de 14 quilômetros, o que corresponde a fazer duas vezes o percurso que sai da casa e vai serpenteando por todas as árvores selecionadas, retornando ao ponto inicial. Na primeira passada faz-se o corte, na segunda a coleta. É o que se chama estrada de seringa.
Esse era o nosso universo espacial e temporal. De certa forma ele se transferia para dentro de nós e estabelecia formas de conhecimento do mundo.
A existência de carros rápidos, de que meu pai falava, só ficou palpável com a BR 364. Primeiro, meu pai abriu um caminho até a estrada. Depois mudou a casa para perto dela, num lugar ao qual demos o nome de Breu Novo.
Aí comecei a prestar atenção também nos aviões que passavam de vez em quando. Olhava para o céu e parecia que eles iam tão devagarzinho, de uma maneira tão suave, chegava a imaginá-los quase parados. O avião, o trator, os caminhões passaram a ser referências novas, diferentes do cavalo, da bicicleta. O caminhão, para mim, era de longe o mais rápido.
Passei também a associar velocidade a perigo. Minha mãe e minha avó diziam o tempo todo que era preciso ter muito cuidado. Aparecia um caminhão hoje, outro lá pela semana seguinte ou até mais, mas a criançada tinha que estar sempre atenta “pra atravessar a BR”. Mesmo naquele ermo, tinha-se que olhar para um lado, depois para o outro e só depois atravessar. E, ainda assim, com certo medo.
Mas o impacto maior de conhecer experiências e coisas diferentes de nossas práticas cotidianas, aconteceu quando vi pela primeira vez um fogão.
Desde uns dez anos de idade, eu acordava todo dia por volta de quatro da manhã para preparar a comida que meu pai levava para a estrada de seringa. A rotina era imutável e demorada: levantar, pegar gravetos no monte de lenha, colocar sernambi - pedacinhos de latex coalhado - para queimar no fogão de lenha, jogar nos gravetos por cima. Com lenha molhada, então, fazer o fogo era uma verdadeira batalha.
Todo dia preparava farofa. Às vezes com carne, mas quase sempre com ovo e um pouquinho de cebola de palha, acompanhada de macaxeira frita. Aí botava dentro de uma lata vazia de manteiga, com tampa.
Manteiga era comprada só quando minha mãe ganhava bebê. Meu pai encomendava no barracão - o entreposto de mercadorias mantido pelo dono do seringal - uma lata, pra fazer caldo d’água durante o período de resguardo. Por incrível que pareça, a manteiga vinha da Europa para as casas aviadoras de Manaus e Belém e dali chegava aos seringais do Acre. A lata era uma coisa preciosa. De bom tamanho, muito útil, tinha tampa e desenhos lindos e elegantes.
O ritual de fazer fogo, preparar o café e a farofa e entregar a lata a meu pai levava uns 45 minutos. O que eu sabia de cozinhar se resumia àquilo. Até que vi pela primeira vez um fogão a gás, em Rio Branco, quando tinha uns doze anos. Estava muito doente e fui com minha mãe. Ficamos na casa do meu tio, na periferia da cidade. Fiquei encantada com o fogão. Como era rápido! Subia de repente um fogo azul e era só botar a panela em cima!
Muito mais tarde, morando já em Brasília, estava atrasadíssima para uma votação no Senado e precisava comer alguma coisa antes de sair de casa. Programei o microondas para 45 segundos e fiquei na frente, estalando os dedos, agoniada, como se pudesse apressar ainda mais a máquina: vamos, vamos, vamos! E enquanto estava ali, nessa coisa meio maluca e ridícula, me veio de uma vez à mente a rotina do seringal. Me vi queimando o sernambi, a lenha, fazendo a farofa, preparando a lata de manteiga. O fogo vermelho e barulhento dos gravetos, a descoberta da chama azul do gás.
Acho que a vida toda fui manejando as coisas do tempo e da velocidade, sem perder o meu tempo e a minha velocidade internos. No meu aprendizado de vida, as coisas velozes sempre se associavam à cidade, e as mais vagarosas à floresta. De nossa colocação até o Piratinim, um dos barracões do Bagaço, eram onze horas de caminhada. Dali até a margem do rio, era mais uma hora. E da margem do rio para Rio Branco, em torno de dois dias e meio. Hoje se leva menos de uma hora, por asfalto, para vencer os 75 quilômetros daquele ponto até Rio Branco.
Em geral as pessoas me acham muito calma. Talvez isso tenha a ver com a minha conformação emocional, mas é também um jeito de me relacionar com as dimensões do cosmos, de tal modo que vou internalizando e conciliando a frequência tecnológica e o ritmo frenético da vida urbana e da política com a potência do rudimentar que faz parte de mim e sempre fará.
Na floresta, onde todo deslocamento demandava muito tempo, paradoxalmente recorríamos à velocidade do som para nossas necessidades de comunicação mais urgentes. Quando se queria avisar do nascimento de uma criança, sem ter que andar horas ou até dias pela mata, usava-se um código: dois tiros de espingarda significavam que nascera uma menina; três tiros, um menino. Se alguém morresse, eram sete tiros. E no último dia do ano, doze tiros para compartilhar a comemoração do ano novo.
Nosso totem tecnológico era o rádio a pilhas, um bem quase mitificado. Podia faltar tudo, menos pilha para o rádio. O nosso era da marca Canadian. Meu pai, minha mãe e minha irmã mais velha eram os que sabiam manejá-lo. Ficava bem alto, numa pequena plataforma na parede. Minha irmã tinha que subir no banco para alcançar e meu pai e minha mãe ficavam na ponta dos pés.
E ninguém mais podia mexer, para não prejudicar o ajuste e não dar chiado. Para meu pai, era sagrado ouvir a Voz do Brasil e os noticiários em português da BBC de Londres e da Voz da América. Minha mãe e minha irmã mais velha gostavam das novelas.
O rádio em si atraía muito minha curiosidade e mesmo com todas as advertências, algumas vezes não resisti e mexi. Levava cada carão, pois, é claro, desajustava as faixas e lá vinha o odiado chiado. Uma vez consegui desparafusar a tampa traseira para ver se havia gente dentro da caixa.
Meu pai gostava muito de informação. Minha mãe sempre pedia ao noteiro - o homem que fazia as contas do saldo dos seringueiros e anotava as encomendas de cada família - revistas velhas porventura descartadas pelos patrões, em Belém. De quando em vez, vinham revistas Manchete. Minha mãe separava as páginas mais bonitas ou com muitas fotos para forrar as paredes da casa, um costume dos seringueiros. Mas antes que ela recortasse tudo, meu pai lia tudo avidamente, mesmo sendo notícias velhas.
Nunca esqueci as fotos da morte do presidente Kennedy. Meu pai sentado no chão, com a Manchete aberta no colo, rodeado de crianças, lia em voz alta e explicava o acontecido. Ele já sabia, como fiel ouvinte da Voz da América, mas agora era diferente, tinha o peso das imagens. Ele dizia “presidente da América do Norte”, e não Estados Unidos. Das coisas que meu pai contou, o que mais me impressionou foi que, ao prenderem o suposto assassino, alguém teria gritado: “quebrem-lhe os polegares!”.
Só que, quando olhávamos fascinados as fotos de Kennedy na Manchete de novembro de 1963, já estávamos em 1968, cinco anos depois da tragédia de Dallas. Entre o acontecimento, a informação e a imagem, a completa percepção se arrastara por vários anos. É como se o fato tivesse viajado intacto pelo espaço, em cada detalhe: o estado de choque das multidões, o sangue do presidente, seus filhos tão pequenos, o corpo caído no carro. E de repente tudo isso aterrissou em nosso seringal, sem quebrar a emoção e o impacto, como se fosse uma época invadindo o domínio de outra.
Mas, afinal, o tempo que valia mesmo era o nosso, o das nossas circunstâncias. Não nos incomodamos de saber, com cinco anos de atraso, algo que já era História no restante do mundo. Nossa velocidade, vejo agora, não era veloz. E isso não tinha a menor importância.

Clique aqui para acessar o blog “tempo algum”.

Nota do autor deste post:
Marina Silva está senadora, como já esteve ministra e em breve vai estar candidata. Reafirmo que este post não foi movido por uma adesão política pessoal. Aqui neste post ela está fotógrafa. Ao longo de sua narrativa ela abre seu arquivo de “fotos não grafadas no acetato” mas guardadas em sua memória, algo que todo fotógrafo experimenta em sua vida, fotos feitas na cabeça e guardadas na memória. Existe a “não foto”, no sentido do aparato técnico da expressão? Existe um arquivo universal (pedindo licença a Rosângela Rennó) de “não fotos” que nos influencia através de outros aparatos de sensibilização (por exemplo esse texto da Marina)? Isso será debatido no FestFotoPoA 2010.
Carlos Carvalho, novembro 2009(?).

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7 Comentários »

  • Pio says:

    Oi Carlos,

    que bom esse post! Eu tenho esse texto guardado, assim como um outro bem especial, que é um relato de Tom Zé quando ele percebeu o significado da palavra tecnologia na vida dele. Enfim, uma outra consciência digna de quem experimenta mundos com temporalidades diferentes.

    Mas, como orportunidade desse comentário, queria lhe pedir uma adesão política social! Vamos votar sim em Marina. Por tudo isso que você relatou. Pelo nosso tempo.

    Leonardo Boff, citando Victor Hugo: “Não há nada de mais poderoso no mundo do que uma idéia cujo tempo já chegou”.

    http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2009/08/31/marina-silva-um-novo-olhar-sobre-brasil-218759.asp

    Abs!

  • Mesa de Luz says:

    Pio, meu querido!
    Marina é minha irmã querida. Tive o privilégio de conviver com ela no Acre e depois em todos os tempos desse Brasil, que coincidem com o meu tempo e o dela. Eu só tive (e tenho) o cuidado de não fazer as pessoas entenderem que é um posicionamento político do Mesa de Luz, porque o Mesa é nosso e não do Carlos Carvalho. Já publiquei aqui um post sobre o MST (para onde vão os vivos do MST?), no impulso do momento de mais um assassinato no campo. Algumas pessoas não postaram mas questionaram. E alí no MST tinha tudo a ver com fotografia assim como tem agora com esse texto da Marina porque pra mim a fotografia tem a ver com a vida. Mas sim, sem dúvida nenhuma, votar na Marina é se posicionar pelo nosso tempo e o tempo dos nossos filhos. E falando em Leonardo Boff também tenho um texto dele guardado no meu site pessoal (Inclusão Social) que coloquei na abertura da página sobre acesso à água, dá uma olhada lá… http://www.inclusaosocial.com.br/boff.htm
    bjs e abs
    Carlos

  • Salve Carlos,
    primeiramente parabéns pelo mesa! Muito gostoso de ver e ler.
    Adorei esse texto da Marina!
    Acho que serve de grande lição à nova geração de fotógrafos digitais e impulsivos, que usam suas câmeras quase como filmadoras produzindo um enorme número de imagens mas sem conteúdo, sem discernimento. Antigamente olhávamos os contatos para extrair uma grande foto dentre as 12 ou 36 imagens de cada rolo. Hoje se produz centenas, talvez milhares de fotos, quase todas iguais, e para quê?
    Acho que mais do que investir em cartões de 16Gb, os fotógrafos precisam meditar um pouco, fazer Yoga… ou quem sabe observar formigas…
    By the way, o mundo está mais rápido do que podemos acompanhar.

    Abraço grande,

    Thiago
    ps. não sou contra o digital, ao contrário, e ainda não faço yoga.

  • Mesa de Luz says:

    Fala Thiago!
    Esse texto da Marina me fez reverenciar 2009 que eu julgava acabado. Valeu pelo ano inteiro. São momentos que quando nos vêm…..é ajoelhar e mandar um beijo pro sol.
    abração!!
    Carlos

  • [...] de um texto da Marina Silva publicado na Revista S/N (12), postado no blog Tempo Algum e depois no Mesa de luz pelo Carlos Carvalho. Um relato sobre a velocidade do [...]

  • Ari Baiense says:

    Prezado Carlos,

    Sempre fui fã do seu trabalho como fotógrafo e fico muito feliz de descobrir sua iniciativa social, através do site Inclusão Social. Pretendo divulgar sua iniciativa e, se você permitir, replicar a(s) idéia(s) em Curitiba e arredores onde tenho apoiado algumas ONGs.

    Obrigado também pelos belos textos, da Marina Silva e do Leonardo Boff no site.

    E sobre o tempo, quando deixo o carro em casa e saio caminhando pela minha vizinhança, sinto de certa forma o mesmo relatado por todos acima, vivemos apressadamente e deixamos de viver por completo. Somos consumidos pelas agendas lotadas e frustrações que o dia com “apenas” 24 horas nos trazem…
    Muitas reflexões a serem feitas e novos rumos a serem traçados!

    Obrigado e grande abraço!
    Ari

  • Mesa de Luz says:

    Prezado Ari
    Obrigado pelas palavras carinhosas.
    Sem dúvida pode divulgar e replicar e se precisarem de alguma ajuda que esteja ao meu alcance ésó fazer contato.
    Sobre a questão do tempo, talvez essa seja a maior revolução que a humanidade possa fazer no novo milênio. O desafio de parar.
    Parar sem culpa. Andar devagar. A lentidão como conexão do corpo com a vida. A lentidão como prazer de ser e viver.
    Acredito que a fotografia possa ajudar nessa questão.
    Abraço grande pra vc e todos de Curitiba.

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