Por onde anda Cartier-Bresson?

O FestFotoPoA 2010 vai debater o tempo na fotografia. E mergulhar na poça da arte contemporânea junto com Cartier-Bresson.
Por onde anda Cartier-Bresson?
Segundo Henri Cartier-Bresson foi Capa quem lhe chamou a atenção para a “falta de compromisso” dos surrealistas e o convenceu a realizar reportagens fotográficas e assim ele o fez. Muitas e maravilhosas. Mas guardou dentro de si o espírito surrealista que o permitiu ser livre dentro da objetividade de informar, o salvou do rigor bressoniano e deu a ele a régua e o compasso da fotografia contemporânea há 80 anos.
Ao recolher sua Leica e voltar ao grafite do desenho, Bresson aguardou que o fotograma da fotografia contemporânea percebesse seu esforço em dar “o pulo, o salto seguinte”. Cansado da arte - de informar e ser esteta - que tinha nele próprio a maior referência do século XX voltou à meditação do seu grafite. Este salto encontra espaço de representação em uma foto de 1932 que “quebra” o rigor bressoniano e desmoraliza o “instante decisivo” propagado tanto pelos seguidores do instante decisivo quanto por seus detratores. No momento da foto, Bresson está em um espaço aberto, sem nada que o impeça de seguir o “rigor” de uma lógica renascentista que o faria compor uma imagem horizontal. A foto é vertical. Os bressonianos dirão que com o uso da lente normal essa foto não seria feita na horizontal. Não seria? Esse debate não é técnico e sim do campo da estética. Foi o instinto - guiado pela bagagem cultural de milhares de anos de Bresson e pela mala aberta para a imagem contemporânea que o levou à decisão de “ali se posicionar”, 80 anos antes de hoje. Bresson salta junto com o homem e com a bailarina ao fundo, na poça da arte contemporânea. O milimétrico encontro do homem saltador e seu duplo refletido, toca no infinito daquilo que ainda viria a ser. Ali, Bresson faz seu auto-retrato definitivo. Tudo que ele faria depois aprofunda este salto e esgarça o tempo do “instante decisivo”, aproximando a fotografia de informação de todas as possibilidades de expressão, inclusive as contemporâneas. Quando aquele fotograma foi colocado no banho do revelador encontrou a estética da segunda metade do século XX já sendo fixada enquanto seu filme tirava os fotogramas do século XXI para dançar.
Mergulhamos no mar de possibilidades da tecnologia multimídia e isso é uma delícia mas, sem perder de vista que é o autor que confere à fotografia seu caráter de realidade e concretude de expressão.
Carlos Carvalho



A fórmula é usada até hoje pelos fotógrafos sérios e comprometidos com o bom fotojornalismo. Exemplos: Luis Humberto dentro dos gabinetes da ditadura; Marcos Prado com Free Tibet e Carvoeiros; os inúmeros registros de Hélio Campos Mello durante o período do fim da ditadura; e João Castilho documentado sua Minas Gerais. Ricos documentários, todos alicerçados na visão do mestre. Isto foi ontem… Bresson parece que estar bem ali na esquina com sua Leica. Por que assassinar uma bela história para dar lugar a uma outra, gerada no laboratório da mediocridade? Com que direito alguns fotógrafos, curadores e galeristas alardeiam que o bressonianismo está sepultado?
O que dizer de milhões de fotografias realizadas depois do surgimento de Bresson na face da terra? O que rege o pensamento do fotojornalista no século XXI, senão o momento decisivo, mesmo quando alguns pensam que ele esteja exaurido e que é necessária a busca de uma nova maneira de enquadrar o mundo e o ser humano, quando sabe-se que a fórmula do mestre é perfeita?
A verdade é que a fonte não seca e de vez em quando os oportunistas de plantão correm e lançam mão da fórmula para aparecerem bressonianos nos leilões? Já vi isso não faz muito tempo. Por que não lançaram mão da imagem chula contemporânea, carregada de camadas? Não, mas continuam acendendo vela pra dois santos. Em cima do muro, tentando equilibrarem-se sobre um precipício sem fim, tudo em nome da vaidade e da ganância humana em querer ser diferente, acompanhando um mantra que não fará milagres.
Bresson e seus seguidores saem às ruas para apanhar a vida a laço e se negam a capturar imagens para engordar o orçamento familiar com imagens ditas “contemporâneas”, que passaram a ser cultuadas e exibidas por incapacidade de quem cura, e, ao mesmo tempo, por incapacidade de um criador num período transgênico, que nega-se admitir, por incapacidade mesmo, que é muito mais complexo estar atento na hora do registro da poesia decisiva bressoniana, do que fotografar o próprio pênis – basta ver o lixo produzido por Terry Richardson, e, o lixo de seus seguidores – como que avisando ao mundo que aquilo a partir de agora, deve substituir o trabalho do criador maior de uma estética, moderna, atual, eterna, e, esquecendo o trabalho espartano de milhares de criaturas com a alma envolta pela magia de ver e registrar o mundo de forma lúdica e sofisticada. Isto é Bressonianismo, e esta brasa nunca esteve tão incandescente. Alguns acendem velas comemorando o fim do bressonianismo, mas tomo esta atitude como um socorro para olharem-se na escuridão da mediocridade.
Bresson continua ensinando a fotografar com a seriedade necessária, como se vivo estivesse, mesmo que os dias de hoje, estejam qualhados de nulidades, por cliqueiros que resolveram sepultar sem autorização, o momento decisivo através da eleição da expressão “fotografia contemporânea”, o que é na verdade, um escopo para dar um falso brilho a uma fotografia transgênica e vazia de conteúdo mágico que a fotográfica bressoniana carrega. Também não é fácil fotografar da maneira como os seguidores de Bresson fotografam. Daí… Daí que não adianta tentar inventar a pólvora. Basta ler a fotografia de Evandro Teixeira, Sebastião Salgado e muitos e muitos outros, para percebermos que o resto, é pura balela visual de um novo século XXI vazio de novas e boas emoções.
Descobri uma outra faceta dos articuladores das artistadas… Diante da crise de criatividade que um determinado seguimento enfrenta, justamente por não ter capacidade de sair às ruas para fotografar bressonicamente, trancaram-se nos seus birôs e passaram a fotografar abobrinhas e trabalham no computador, carregando a mediocridade captada com camadas de “defeitos especiais” que o photoshop proporciona. Ninguém está aqui, cortando o barato de ninguém, só jogando tinner na cara de pau invernizada de muitos.
Outro dia, vi alguém se transformar em artista plástico da noite para o dia. E olha que o camarada até que não fotografa tão mal… Mas descobri o motivo da transformação. Primeiro, ele quer ganhar alguns trocados; e segundo ele meteu na cabeça que tem que virar celebridade, mesmo que tenha que ferir seus princípios básicos de dignidade humana, coisa que Bresson e muitos outros carregam na alma. Caráter é que nem músculo. Para ficar forte é necessário fazer exercício diário. Os seguidores de Bresson seguem esta regra até quando pensam e olham o mundo de forma poética, sem se preocupar com a medalhas no peito ou conta bancária. Tudo vem automaticamente…