“Um fotógrafo na mira do tempo – Porto Alegre por Virgilio Calegari”

Metâmeros na luz
A possibilidade oferecida pelo Mesa de Luz de veicular, de forma sistemática, informações sobre o trabalho do fotógrafo Virgilio Calegari, italiano que fez sua carreira na Porto Alegre da virada do século XX, é mais que oportuna. A obra de Calegari ainda não foi totalmente revelada e aguarda insone poder ser trazida à luz.
Tido como um mestre do retrato, o fotógrafo manteve uma atenta observação das transformações urbanas de Porto Alegre. Repetiu tomadas e documentou a evolução urbana em registros sistemáticos da cidade que confirmam o interesse particular e seu investimento pessoal no tema, transformando-o em um leitor privilegiado da cidade.
Na pequena capital do início do século, Virgílio Calegari operava uma máquina capaz de produzir um passaporte para a modernidade, mas em momentos substanciais de sua obra parece ter os olhos e objetivas apontados para o passado. Calegari viveu e fotografou uma cidade que não era e faltava muito para parecer moderna. Em um presente empenhado em construir o futuro, parece estranhar o novo mundo e volta-se para trás, imortalizando espaços e vivências condenados ao desaparecimento.
A aproximação do trabalho de Calegari no registro do que hoje consideramos como patrimônio imaterial pode render frutos bastante promissores. Com alguns exemplos do restrito conjunto até agora conhecido de seu trabalho, o terreno do retrato, onde o fotógrafo exerceu toda sua maestria na consolidação da imagem de uma elite letrada e ascendente, parece oferecer oportunidade para identificação de elementos intrigantes de sua intencionalidade como autor e de sua preocupação também com a fixação de uma memória.
Neste sentido, o retrato de um grupo de acendedores de lampião perfilados e ostentando seus instrumentos de trabalho poderia ser considerado quase como que a sacralização não só da profissão, mas também da iminência de sua extinção. Com datação não fixada pela instituição de guarda.
A fotografia tomada por Calegari conforma uma pose típica dos retratos de grupo onde o posicionamento é condicionado pela amplitude de enquadramento obtido pela câmera. Para não deixar de fora nenhum de seus 16 modelos, o fotógrafo optou por uma composição com duas linhas horizontais sucessivas e de altura crescente que não são totalmente simétricas, mas mantém equilíbrio em relação ao elemento central, um homem montado a cavalo que também serve como marca para o terceiro plano da imagem. Estas camadas horizontais servem também para realçar a presença dos instrumentos de trabalho trazidos à cena, já que são pontilhadas pelos altos bastões exibidos. No primeiro plano, na lateral direita, um lampião completa a cena e reforça a identidade forjada pela ocupação profissional de um grupo heterogêneo, tanto em termos de etnia quanto de faixa etária.
Os trabalhadores estão todos sérios e mantêm uma postura corporal atenta, enfrentando a câmera de forma direta, em uma frontalidade absoluta. Não há desvios no olhar. No jogo da representação, investem na constituição de uma postura digna de trabalhador austero. Sem sorrisos, coerente com um modelo de contenção corporal muito freqüente nos primeiros retratos.
A cópia da imagem ostenta a assinatura identificando a autoria de Calegari, mas até este momento não foi possível verificar se a fotografia é resultado de um trabalho comissionado ou iniciativa do próprio fotógrafo. Em qualquer dos casos, trata-se de funcionários do município ou da concessionária responsáveis pelo acionamento dos lampiões, atividade que já na virada do século estaria com os dias contados. Dessa forma, é possível concluir que, na iminência de uma mudança substancial na feição urbana e, em determinada medida, em uma atividade econômica da capital, o fotógrafo optou por retratar o elemento humano. Ao priorizar o trabalhador e não o sistema de iluminação, imortalizou uma profissão em vias de extinção e ofereceu a possibilidade de salvar do esquecimento algumas vítimas inevitáveis do progresso e da modernidade.
Sinara Sandri é jornalista e mestre em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul com o trabalho: “Um fotógrafo na mira do tempo – Porto Alegre por Virgilio Calegari”, realizado sob orientação de Sandra Pesavento.



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