De pedras e Picaretas – Sarney 22 anos depois

Foto: Carlos Carvalho – www.brasilimagem.com.br
No dia 25 de junho de 1987, o então presidente José Sarney cumpria uma agenda de visitas no Rio de Janeiro, que foi encerrada com a inauguração da reforma do Paço Imperial, na Praça XV de Novembro, centro do Rio.
Uma manifestação organizada pela CUT, PT, PDT e organizações do movimento popular acompanhou a comitiva de Sarney durante todo o dia, em todos os locais visitados pelo presidente. À noite ao sair do Paço Imperial, o ônibus de Sarney foi cercado pelos manifestantes que gritavam a palavra de ordem Fora Sarney. As grades que separavam a multidão do ônibus não seguraram a fúria dos manifestantes e no auge dos protestos o ônibus foi apedrejado, acertando a janela do assento onde estava o preseidente. Por muito pouco o Brasil não teve seu primeiro presidente linchado em praça pública.
Versões oficiais fantasiosas disseram que se tratava de um atentado contra o presidente, praticado por um manifestante “armado” com uma picareta. Não foi, foi pedrada, e a picareta nunca foi apresentada. Dois membros do PDT foram presos para cumprir o papel de bode expiatório da falta de preparo do governo para lidar com a situação e aliviar a barra do então ministro da justiça Paulo Brossard. Como fotojornalista independente minha pauta tinha que ser diferente dos outros fotógrafos para que meu material encontrasse publicação. E alí a única diferença era chegar o mais próximo possível para conseguir enquandrar o povo a menos de dois metros do presidente. Consegui uma foto de um manifestante gritando a plenos pulmões e com o dedo em riste quase tocando na janela do ônibus. A grande angular e um flah Metz eram parceiros fundamentais. Foi quando a janela do presidente explodiu numa pedrada. Fui o único a fazer a foto e durante um mês me escondi em São Paulo dormindo com meu negativo e recebendo o apoio dos seus companheiros da Agência Angular depois que Brossard anunciou que iria confiscar todos os negativos dos jornais que cobriram o Sarney naquel dia sob o velho argumento da Segurança Nacional e para identificar manifestantes.
Era o segundo ano de um governo civil eleito pelo povo que elegera Tancredo Neves.Vinte e dois anos depois do golpe e 20 de ditadura militar.
Vinte e dois anos depois Sarney novamente é presidente – do Senado – e os senadores apedrejam a própria moral qando se calam e não reagem à afirmação de Sarney que a crise não é dele, mas do Senado. Se apertar, cabem todos nesse ônibus de janela apedrejada.
Carlos Carvalho – ccarvalho.festfotopoa@gmail.com



http://www.forasarney.com
A foto é importante não apenas por refrescar a memória, mas principalmente por ser parte da história do fotojornalismo brasileiro independente. Trabalhar em cobertura de agenda presidencial significa tentar se livrar dos currais destinados aos jornalistas. Alguns conseguem, outros esperam a próxima vez.
Fico esperando pela história (completa) da foto.
E prá não dizer que não falei … lembro os grafites que deram a real sobre a falsa ilusão da Nova República: “O povo não esquece, Sarney é PDS”.
Bjs e minha admiração
[...] MISERAVELMENTE. Saiu do Planalto levando pedradas no ônibus, achincalhado pelos [...]
Carlos,
muito bom vc ter resqgatado essa foto. Ela, além de nos mostrar um fato marcante em momento oportuno, é um belo testemunho – reforçado pelo seu excelente texto – da boa prática do melhor fotojornalismo.
Meus cumprimentos,
Grande abraço,
Milton Guran
Detalhe: Tancredo foi eleito dentro de um colégio eleitoral e Sarney sempre foi títere dos militares, tanto que o milico Valdir Pires foi quem segurou a prorrogação do mandato para cinco anos. O ossso ainda tinha algum tutano. Eleição direta mesmo, só em 89, quando povo em vez de eleger gente, elegeu Collor.
Engraçado todo mundo falar nesta múmia…Mas por que Lula e seus líderes seguram o cara? Povo na rua é sistema abalado. Olha o exemplo do Perú, Argentina e Bolívia…